domingo, 6 de janeiro de 2013

Ninguém vai me amar como você me amou

Ele andava desengonçado, era tímido, eu chegava a pensar que ele era mudo, sentava bem ao meu lado e não ouvia ele falar se quer uma palavra, a não ser que fosse para corrigir os professores. Era fechado, parecia não ter sentimentos, não demonstrava nenhuma emoção, mas eu gostava dele, o porque eu nunca soube, mas me sentia bem em conversar com ele, se bem que não era bem uma conversa, ele não falava muito. De vez em quando, raramente eu o fazia rir, era um sorriso desengonçado mas sincero. Dia 23 de Setembro ele apareceu na minha casa a tarde com a desculpa de que ia me ajudar a estudar para a prova de química que tínhamos na segunda, subi com ele até o quarto, peguei os livros e me joguei na cama, ele continuava parado olhando pro chão, o puxei para o meu lado e tentei puxar assunto pra ele relaxar, e não, a gente não estudou nada, passamos a tarde conversando, nunca vi ele falar tanto como naquele dia. Quando a escola entrou em semana de prova a gente se aproximou bem mais, toda tarde ele estava na porta da minha casa com aquele sorriso largo e desengonçado pedindo pra estudar comigo. Na sexta era o ultimo dia de prova, eu não sai muito bem da aula, fiquei horas sentada de baixo de uma árvore que tinha em frente da escola, porque só naquele dia eu percebi que pra mim ele não era só um parceiro de estudos, eu precisava que ele continuasse passando tardes conversando comigo, porque só ele me entendia. E talvez estudar não fosse uma desculpa, talvez ele não queira passar daquilo, talvez a gente nunca mais converse como conversamos naquela semana. Mas sem prova, sem desculpas você foi me ver na sexta também, me abraçou tão apertado que eu podia sentir seu coração batendo, disse coisas lindas no meu ouvido, coisas que eu não esperava ouvir, não de você, me beijou mas depois foi embora, sem falar nada, nem dizer aonde ia, nem se eu ia o ver de novo. Já era como um compromisso eu ir para a festa com minhas amigas, era em um interior perto daqui, essa noite não foi como todas as outras, eu fiquei metade da festa sentada, não fazia nada além de fumar um cigarro atrás do outro, e pensar nele, claro,eu já estava cansada de musica alta no meu ouvido, queria ir pra casa, deitar na minha cama e não levantar mas, Fui procurar a Julia, ela que ia me levar pra casa, quando levantei a primeira coisa que vi foi aquele sorriso e o andar desengonçado, fui atrás dele como uma louca, ele me viu indo em sua direção mas não parecia tão feliz como eu esperava que ele ficasse em me ver, ele me abraçou com desgosto e me pediu pra conversar, eu sabia que não era nada bom, a gente sentou e ele me contou da vida dele, contou os problemas, e de sua ex, ela foi o assunto principal dali, ele não falava bem dela mas também não falava mal. Eu esperava que ele me levasse pra casa, me desse um beijo de boa noite, e dai fosse embora ou ficasse pra dormir comigo, oque seria até melhor. Enquanto nos conversamos chegaram no minimo 1001 mensagens no celular dele, eu ficava perguntando de quem era e ele não me respondia só pedia pra eu prestar atenção nele, mandei ele parar porque de tanto ele falar da ex dele, e depois de tantas mensagens eu cheguei a pensar que ele ainda o amava, e que ele não me queria por perto. Mandei o calar a boca e fui embora, com raiva e sem a Julia, ela que se dane, deveria esta me ajudando agora, não em porra de festa. Passamos mais o menos umas duas semanas sem se falar, passávamos um pelo outro na escola, era como se fossemos desconhecidos, ele me passava o dia inteiro me mandando mensagens, eu obrigava a Julia apagar todas e que não lesse nenhuma. Era sexta-feira, tínhamos outra festa pra ir no mesmo local, eu não tava muito afim de ir, sabia que ele estaria lá e não queria nem olhar na cara dele mas por outro lado eu não podia me isolar da vida por causa de garoto, o garoto que eu amo mas um garoto. Eu me arrumei nas presas, quando ia saindo com a Julia meu celular começa a tocar, assim que peguei vi a foto dele e o nome “Amor”, eu sabia que não ia conseguir ignora-lo pela minha vida inteira e que logo veria ela então atendi. Ele me deu mil e um motivos pra ter conversado comigo naquela outra festa, que queria tirar todas as minhas duvidas antes de me pedir algo, eu perguntava “Como assim algo?” Ele falou que só me diria quando a gente se encontrasse novamente. Ele estava indo com o Lucas e mais 3 amigos, todos já tinham bebido antes da festa, o Lucas estava com uma garrafa de vodka absolut na mão, e era justamente ele que estava dirigindo, ele me contou que já não estava gostando disso, começou a chover no meio do caminho, os continuamos conversando quando me dou conta que o carro dele esta bem na minha frente, eles estavam na contra mão, os outros meninos tentavam avisar pra o Lucas só que nem escutando ele estava mais, vinha o caminhão em direção deles, mandei a mãe da Julia parar e desci correndo do carro, e sim o carro bateu, não sabia oque fazer, pensei que naquele ponto não teria mas ninguém vivo dentro do carro, eu caí no chão, nunca chorei tanto daquele jeito, eu queria chamar uma ambulância mas estava tremendo demais para almenos conseguir pegar meu celular, a Mãe da Julia ligou, colocaram ele na maca e os levaram para o hospital, quando chegamos lá o Lucas já não estava mais vivo. Já eram 3:27 da manhã e ainda não tinham dado nenhuma noticia deles, uns 20 minutos depois a enfermeira nos informou que todos os 4 ainda estavam vivos mas provavelmente por pouco tempo, ela deixou que eu entrasse pra falar com ele, talvez pela ultima vez. Foi horrível ver ele respirando por aparelhos, mal conseguindo abrir os olhos, eu sentei ao seu lado e o abracei, quando o soltei ele segurou minha mão e me chamou.
— Amor
— Oi amor
— Me desculpa?
— Pelo oque amor?
— Por não ter ido até você antes, por ser tão idiota e não falar logo oque eu sinto, não queria ter brigado contigo na outra noite, queria que pudesse me entender demais, eu ainda tinha tanta coisa pra falar, na verdade ainda tenho muita coisa pra falar, não devia ter sido idiota ao ponto de ficar longe de ti por mais de duas semanas, devia ter conversado com você antes, desculpa.
— Não precisa pedir desculpa.
— Preciso, claro que preciso, olha onde estamos agora, a gente devia estar na sua casa, vendo o dvd que você me mandou alugar outra semana, e não no hospital.
— Amor, me promete uma coisa?
— Sim, oque?
— Promete que vai ficar bem, e que amanhã vamos sair daqui juntos?
— Eu não posso te prometer isso, não sei se vou poder cumprir.
— Ela aperta sua mão e começa a chorar.
— Independente do que aconteça, se eu sair daqui vivo ou não, eu sempre vou estar aqui ó. — Ele põe sua mão no coração dela. — Vou cuidar de você não importa onde eu estiver.
— Promete?
— Sim.
— Ela beija a testa dele.
— Amor
— Oi
— Eu te amo.
— Eu te amo bem mais. — Ela o vê fechando os olhos, levanta desesperada, chorando, gritando pela enfermeira.
A enfermeira chega já tarde demais, ele já tinha partido. Partido sem dizer adeus, sem aproveitar a vida. A gente ia fazer tanta coisas juntos, eu também tinha muita coisa pra contar a ele, tantas perguntas pra fazer, nunca vou encontrar alguém que tenha o sorriso tão sincero, que seja tão carinhoso, que me ame tanto quanto ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário